Língua Afiada
   Nordestinidade


Cinco e meia da manhã. Como todos os dias, exatamente nesta hora se iniciava o badalar insistente do sino da capelinha do bairro. Era o chamado para a ladainha prestes a começar. Logo, o coral de beatas desafinadas começavam (des)entoar os cânticos. A comunidade em volta se agitava. "É preciso rezar para afastar os males. Pedir benção a Deus e dias melhores.


-         Quem não reza vive atormentado pelo “coisa ruim”. A vida desanda – diziam as beatas, no retorno da obrigação diária com o “Pai do Céu”.


-         Quem reza tem Deus no coração – pregavam, ainda com o terço na mão e o olhar contrito.


Quem não se animava com o chamado badalar do sino, ficava em casa a se revirar na rede de um lado pro outro. Preguiça de levantar. O vento frio da manhã lambendo as costas.


 -         Que diabos, não se pode nem dormir com a tagarelice dessas beatas de uma figa, bradavam os incomodados. Eu incluído.


-         Que heresia! - dizia mamãe.


E da capela, cada vez mais eufórico e desafinado, o som das ladainhas ia chegando aos nossos ouvidos.


Vida no interior, todos os dias a mesma coisa: novena, ladainha, beatas com seus lenços na cabeça a conversar na esquina sobre a próxima procissão, a próxima quermesse...


 


Seis da tarde. Hora de pedir perdão pelos erros cometidos durante o dia. Nova sessão de beng-geng-beng. É o sino da capela a convocar novamente seus fiéis. Do outro lado da rua em que fica a capela, vida mundana: o Cabaré da Lúcia. Putas para todos os gostos. Fim de tarde, início de noite. Últimos retoques na casa para receber a clientela. O profano e o sagrado frente a frente.


No rádio, a “hora do ângelus”. Em algumas casas, volume no máximo para receber direito a bênção do bispo.


Vida no interior nordestino. Homens que retornam do trabalho em suas bicicletas. Uma pinga na esquina antes de chegar em casa. Quem sabe uma parada rápida na “casa” da Lúcia. E a criançada correndo no terreiro, feliz da vida e despreocupada com o futuro.


Na calçada das casas, trabalhadores estropiados do dia duro que tiveram se regozijam ouvindo Seu Elói – radialista dos bons, incentivador da cultura popular. Repertório musical: Luiz Gonzaga, Trio Nordestino. Autêntica música nordestina. Nada de pornô-forró. E a cultura oral sendo repassada pelo rádio, nas leituras dos cordéis. Seu Elói era um mestre nessa arte. Radialista íntegro, dos bons! Fazia rádio bom. Agora deve está comunicando no céu!



Da cozinha dos casebres emanava o cheiro bom de baião-de-dois feito em panela de barro. Para tempero, aquela carne-de-sol frita também em tacho de barro. Uma gostosura de comida, que só vendo (ou comendo)! Tardes nordestinas, que beleza! Recordações da infância.


 


 



 Escrito por Luiz Valério às 20h07
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